quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

                               Não custa tentar...


Engraçado as abelhas. Quando as janelas estão fechadas elas batem de frente. Se jogam. Lutam com toda a força contra o inquebrável vidro do mundo humano. Mas elas não desistem. Os cientistas dizem milhares de motivos pra tal atitude. Mas eu acredito que haja apenas uma explicação. As abelhas têm fé. Elas creem que a possibilidade da janela um dia estar aberta é a mesma de estar um dia fechada. Por isso elas tentam. Porque o futuro só a Deus pertence. As janelas sempre estarão à disposição. Resta saber se abertas ou fechadas. E para isso, apenas jogando-se é que elas poderão obter resposta. Apenas tentando é que se atravessa o vazio de uma janela.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011


                                 Apenas seja...                       


Às vezes fico assim pensando... Existem tantos ângulos para minhas observações. Tantas cores se abraçando e se soltando. Tanto preto no branco e branco no preto. É engraçado olhar as coisas de jeitos diferentes. São modos. Modos de se vestir, de se expressar, de sorrir ou de apenas olhar. Mas são tão diferentes. Digo, há maneiras de se mostrar. E é gozado perceber que o sorriso da vizinha é diferente do de meu pai. Que as lágrimas da menina chorosa ali da frente são totalmente incomparáveis com o choro da criança que acabou de nascer. É perceptível que o ser humano nos proporciona essas peripécias. A possibilidade de ver as mesmas situações, porém com significados completamente inversos. A oportunidade de se surpreender com o básico e habitual. Vi, revi, e verei mais vezes. Entretanto, cada olhar, cada sorriso, seu ou meu, não importa o sujeito, tem marca própria. E, meu amigo ou amiga, sabe o que me surpreende ainda mais? Perceber que o que proporciona essas diferenças de sensações, embora de mesmas ações, somos nós mesmos. É! Nós, que vemos o sorriso ou o choro, o grito ou o silêncio.  Você que está triste nesse momento. Pense. O que essa tristeza te diz? Você sabe por que está triste?  E se eu lhe visse agora? Eu saberia dizer se está na fossa ou na bossa? Isso acaba onde quero chegar. O que sua imagem me transmite, faz, em minha mente, um estereotipo seu. Se, nesse momento eu te faço sorrir. O que eu arranco de você, não são apenas dentes lustrosos em sua mais inocente exibição. Eu lhe arranco a tristeza. Estanco a imagem cabisbaixa.  Acho que talvez não tenha captado meus pensamentos. Mas vou tentar deitar sob as palavras. Você, suas sensações e sentimentos, só existem porque ele existe. Porque ela existe. Quem? Ele, ela? Sim. O ser humano que te faz sorrir. A pessoa que te faz infeliz. Nós, tão estranhamente independentes psicologicamente, na verdade, não somos nada. Nada sozinhos. Somos instigados a sermos algo. Nossos modos são reflexos dos modos do amigo, parente ou conhecido. Da teia densa e extensa que é a vida humana. Somos absurdamente interdependentes. Esqueça aquela história de vencerei com minhas próprias forças. Somos cativados. Cada ser que cruza nosso caminho, desperta um novo Rafael, uma nova Ana, uma nova Amanda por dentro. Somos minuciosamente feitos de todos os tipos humanos. O vilão e o mocinho. A patroa e o empregado. A estranha e o popular. Está guardado em nossa alma. Mas a cada pessoa nova que cruza meu caminho, sou despertado de uma forma. Não são faces da mesma moeda. Não é nada disso. É apenas a realidade. Somos despertos a todo instante. Entretanto, em partes. Acho que talvez seja um pensamento com profundidade em excesso e dificuldade de cognição. Acalme-se. Não estou insinuando que seja incapaz de entender. Mas há suas reais dificuldades. Até para este que escreve o pensamento, é complicado reconhecer a verdade. Ou a estúpida mentira, caso discorde de todas minhas palavras.  Mas ando vendo assim as coisas. Cada pessoa nova, um Rafael novo. Lados antes escusos tornam-se predominantes. É como se fossem várias pessoas dentro de apenas um corpo. Uma mescla de seres. Só preciso ser pra ser, embora, na verdade, já seja. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

                                Incomoda,mas não mata...

Há alguns dias, um parente de estimável consideração de minha parte e , se bem o conheço, de semelhante consideração para com minha pessoa, contraiu uma virose. Daquelas que te deixam dias na cama. Febre, muco, náuseas, indisposição. Como um trabalhador, de tempo livre, quando a inspiração necessária não chega à minha mente, acabei indo lhe fazer uma visita. João me recebeu com agradável surpresa de doente. Todos os doentes quando recebem uma visita aparentam certa surpresa. O medo e a ignorância das pessoas muitas vezes isolam uma boa prosa de descontração do perigo de contágio. Nunca tive tais preocupações. Antes doente do que sem minhas reconfortantes e regozijantes provas de que a vida ainda é serena e compartilhável. De volta à agradável recepção de João José – tomo a liberdade de fazer outra pequena pausa em minha visita, mas é algo de merecido destaque o nome de meu parente. João José. Apesar de dizerem que o nome foi feito para a distinção e individualização dos seres; parente azarado esse meu. João José. Se dermos dois passos à frente da entrada de nossa casa, já cumprimentamos vários ‘’Joões’’ e vários ‘’Josés”. Nada mais comum e ao mesmo tempo brasileiro do que ser chamado de João José. Só faltou o ‘’Silva’’ para meu parente se tornar um verdadeiro representante do comum extremo. Mas a culpa não é do coitado, mas de seus pais. Pois bem, contar-lhes-ei o fato que me levou a escrever. Após os ‘’greetings’’, começamos a perguntar sobre a família, os amigos das antigas. Acabei, então, indagando-o sobre seu estado nada saudável. Ele me revelou sua falta de cuidados com a saúde, sempre preso aos vícios, e que uma doença havia lhe agravado um sério problema no organismo todo. Isso ele dizia parecendo um médico formado com anos de experiência. Perguntei-lhe se o médico era bem capacitado para desenvolver o tratamento. Eis que surge uma resposta nada convincente: “Meu caro, para um homem de minha idade, afastar a vinda da morte pode ser mais mortífero do que a própria chegada desta.’’ É aceitável tomar uns comprimidos por conta própria. Um resfriado ali, outro aqui. Ressalto um fato importante que aprendi com um médico: resfriado não é o mesmo que gripe. Esta mata. Aquele só proporciona canseira e espirros. Bem, João José era o tipo de pessoa que percebemos ser um ‘’auto-médico’’. Nunca havia ido aos mestres do prolongamento da vida. Minto. Já havia ido à um médico. De acompanhante da esposa. Irrelevante para a própria saúde. Pois João José é um dos tipos que vemos com muita frequência nesse mundo. Os portadores da ''médicofobia’’. Ser curado e viver mais alguns anos não tem nada a ver com eles. É preciso entrar na faca para tudo. ‘’Eu, entrar na faca?’’. Definitivamente João José me trouxe a realidade à tona. Medicofóbico. Meu parente afirmava estar muito abatido e arrasado por sua doença. É triste saber que existem pessoas que não prolongam a vida. Como apreciador do viver, convenci João José a ir ao médico. Confesso que a demora foi tanta que cheguei quase à desistência. Contudo, parente querido merece alguns anos a mais de proveito mundano. Só após a promessa de que à menor suspeita de ‘’faca’’ João José poderia correr do pequeno posto de saúde da cidade e nunca mais precisar olhar pra ‘’jaleco branco’’ nenhum, é que minha proposta foi aceita. Rumamos ao doutor. Me senti em Hollywood. Parecia mais um sequestro da nova cobaia do governo federal do que uma visita para tratamento. Suava frio João José. Chegamos ao posto. Dez minutos de espera. ‘’Senhor João José?’’. Era chegada a hora. A primeira visita ao médico e para meu querido parente a última. “Totalmente desnecessário essa vinda. A morte não se engana.” Discursos covardes à parte, cadeira do médico. Estetoscópio no peito, garganta vistoriada, sintomas revelados e eis que surge a grande revelação que tanto João José afirmou ser a confirmação de sua sina. ‘’ Sr. João José, o senhor está com um incômodo resfriado.” Pronto. A morte estava distante de meu estimável parente de nome tão singelo. Até porque gripe mata. Já resfriado... só incomoda.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

                              
                                 Sopa de letrinhas



Confesso que não é um dos melhores dias - nem um dos melhores textos. Apesar de toda aquela diversão, momentânea, sempre acabo fluindo para o mesmo caminho. Para o pensar desnecessário. O remoer de ideias já moídas em minha cabeça; em meus pensamentos. Dessa vez penso ser algo tão indiferente que até me questiono do real valor dessas palavras. Se bem que tudo aparenta ser indiferente. Mas para os outros, não para mim. E é justamente sobre essa força que carrega o sentido das letras unidas, que me desperta esse desejo de escrever. Qual é o real sentido das palavras? Em que se difere um ‘’eu te amo’’ de um ‘’ eu te odeio’’? Qual o contraste que enxergamos em um ‘’ vai se ferrar’’ de um ‘’gosto de ti’’? Seriam óbvios. Odeio-te, nos leva a crer no ódio. Amo-te, nos leva a crer no amor. Mas, é realmente essa a intenção de quem as profere? É odiar ou amar? Talvez possa existir aquele que ama e diz te odeio. Aquele que odeia e diz te amo.  Não. ‘’Sr. Talvez’’, suma daqui. Existem essas pessoas. E, por mais estranho que seja, o antagonismo as fascinam. Acendem a chama ‘’ prazer do intelecto’’. Se você não é esse tipo de pessoa, certamente as achará loucas. Descabidas. Inverossímeis. Entretanto, são as pessoas mais interessantes que conheço. São contrárias a correnteza social! Existe algo mais interessante? Bem, sem essa de correnteza. Gosto de peixes que nadam tanto para a esquerda quanto para a direita. Façamos o seguinte: queimemos essa pobre ideia de sentido da correnteza. Blá,blá. Coisa mais inútil. Os seres são apenas do avesso. Ou melhor, ficam do avesso. Mas sempre quando você  veste o avesso, se desvira. Embora sempre torne a tal circunstância. A do avesso. Pois bem, as pessoas são assim. Ora ao contrário, ora do lado correto. E as palavras seguem esse caminho. Eu, na verdade, torço por esse caminho. O caminho da ré do falar. Seria triste pensar na irracionalidade das pessoas. No não saber que as frases tem sentido. É tão intragável ver pessoas se utilizarem das palavras como se fossem de direito. Pois bem.  Essa minha pífia análise só me serviu para introduzir um pensamento. As palavras possuem real valor? Uma colega disse que não. Um professor disse que sim. Acredito que essas letras, miúdas ou gigantes, faladas ou escritas, constituem o sexto sentido humano. Mulheres, parem de ler e vão dormir se realmente acham que o sexto sentido é feminino. O sexto sentido pertence às palavras. O sexto, o sétimo, o oitavo... Os sentidos que regem nossa vida pertencem às palavras. Você ouve letras, sente frases, profere textos, respira pingos no ‘’is’’ e mastiga cedilhas dos ‘’cs’’. Creio que o real sentido das palavras está na cabeça de cada ser. O que a mim é sim, a você pode ser não. Portanto, não afronte a criança que diz não querer banho. Para você, essas palavras remetem uma criança suja. Para a criança remete minutos preciosos de mais diversão. Não subestime o sentimento do adolescente. Mesmo que surgido há uma semana. Deixe-o dizer o ‘’te amo’’dele. Sua definição de tempo pode ser diferente da dele. Não devemos cair nessa armadilha de acreditar que podemos julgar a palavra do outrem. Se, na sua opinião, tem 5 quilos de imaturidade, para ele tem uma tonelada de sinceridade. Sejamos mais flexíveis. O real sentido das palavras está dentro de todos os seres. E cada ser, querendo ou não, possui balança própria para pesar sua sopa de letrinhas.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

                                                Sementes celestes


Saiu nos jornais da manhã: meteoritos invadirão a órbita terrestre e proporcionarão uma chuva estelar aos terráqueos do planeta azul. Pode ser banal pra maioria das pessoas, mas foi a notícia do ano pra este que escreve. Estrelas cadentes! Melhor, uma tempestade de estrelas cadentes. A beleza é indescritível. Mente aquele que diz não ver graça nos pequenos pontos luminosos da imensidão. Admiro-as como um gato admira o rato. Como o lobo vislumbrando sua presa. Com prazer. Água na boca. Como? Água na boca? Sim, meu caro. Tenho vontade de comer as estrelas. Quem sabe a doçura que envolve o céu não pudesse envolver minhas entranhas. Meu suco gástrico tão amargo. Deve adocicar. Exalaria um hálito de graciosidade, assim como as azaleias. Prefiro azaleias a rosas. Acalme-se você que enlouquece ao receber rosas do amado. Tenho uma explicação. Vaga, infértil e sem sentido. Mas a possuo. Sinto que as rosas são esnobes. Tão queridas, elegantes, desejadas. E as azaleias. Simples, humildes, amadas por poucos. Sinto-me atraído por aqueles que são pouco amados. Por essa razão as azaleias me são mais comoventes. Mas e quem quer saber? Como sou intolerante! Ninguém me perguntou sobre flores. Consciência, volte para as estrelas!
As estrelas... sim. Me parecem premissas. Na verdade são sementes. Não há boatos de que os bebês são trazidos pelas cegonhas? Então!  As luminosas são pequenas sementinhas que carregam nossos sonhos. Não acredita? É normal... afinal, a humanidade quase nem sonha mais... Entretanto eu ainda sonho. E ainda acredito em boatos. E às vezes também os espalho. E esse é o meu boato. As estrelas são sementes de sonhos. Isso me faz ter respostas do por que admiramos tanto a queda daquelas que brilham. Nossos desejos, nossa aspirações, parecem tornar-se próximos. Chegam perto do tangível. E isso acorda nosso subconsciente. Você. Cético mesquinho. Não venha desacreditar minha teoria! Pois eu sei muito bem, logo que acabar de ler essas palavras, será o primeiro a olhar para o céu em busca de seus sonhos. Afinal, estamos perdidos. Isolados na galáxia da descrença. Envoltos pelo buraco negro da monotonia. Absortos nos meteoros sem cores. Esquecidos de que o verdadeiro Sol é aquele que brilha dentro de cada ser. Que a verdadeira Lua está sob o olhar daquele que admiramos. De que as estrelas que cortam a paisagem nesse momento, nada mais são do que um resgate de Deus. Um clarão rápido e silencioso. Que em mim permanece por anos e sussurra meus mais intragáveis desejos. Que em você, sendo descrente ou não, inevitavelmente não deixará de fazer o mesmo. Admiremos as sementes celestes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

                                                   Fim do dia


Sinto cada vez que vou me deitar ter menos sangue nas veias. Menos ar ao meu redor. Falta-me a certeza de que no amanhã estarei de pé. Falta-me talvez a vontade de levantar-me. A vontade de acordar dos sonhos, simples, mas belos. Sonhos ,cujo único lugar, sou feliz.

sábado, 3 de dezembro de 2011

                                 Indesejável, porém necessário...


Ah tristeza... por que é que tu existe mesmo? Eu sei... sei que não obterei resposta pra tal indagação. Mas dói. Queima. Arde. Ao menos mais branda poderia ser. Concorda comigo? Você que lê isto nesse exato momento. Concorde comigo. A tristeza podia ser mais suave conosco. Discorde comigo também. Aliás é por discordar. Debater. Ter coragem de dizer não, que acabei caindo nesse fundo sem poço. Ou seria poço sem fundo? Não sei. A mágoa que me alavancou inversamente é justamente por conta de situações como essa. Situações de discordância. Mas o que é discordar? Ignorantemente dizer não ao invés de sim? Sim ao invés de não? É engraçado como sou sugado. Sugado por algo que sei não ser meu reflexo. Talvez seja justamente por isso. Quem quer ver o próprio reflexo a dois dedos de seu nariz? Quem? O egocêntrico mais patife desse mundo suspeita disso. Suspeita que se ver todos os dias e achar-se o máximo é, coincidentemente, o máximo. Mas até mesmo ele sabe que nós, seres humanos, não desejamos clones de nós mesmos. Queremos o oposto. O descabido. Aquilo que nos norteia de um modo não suave, mas rebelde. Não doce, mas amargo. Diga-me. Por que isso acontece? Por que o interesse humano baseia-se no contra? Sei que estou enchendo esse mísero texto de questionamentos. Mas meu caro ou minha cara. Quem não questiona as estrelas, não sabe o que sinto. Quem não questiona as palavras, não sabe o que penso. Aliás, falando em palavras. Por que existe esse artefato palavra? De que adianta saber o alfabeto, seja em hebraico ou em hindu, em italiano ou latim, se quando precisamos usá-lo parecemos homens da pedra. Da caverna. Da verdade. Pensando melhor. É isso que acontece. A verdade é difícil de ser proferida. Mil palavras caem na nossa língua para uma ser pronunciada. Com certa dificuldade aliás. Mas me orgulho. Você aí. Orgulhe-se também. Você venceu milhões de guerras nucleares dentro das suas entranhas. Mas disse. Falou. Esclareceu. Eu sei que estas palavras estão confusas. Parecem frases jogadas ao vento. Mas esse é meu objetivo. Proferir tudo e nada ao mesmo tempo. Você que lê pode se atar ao nada. Entretanto eu sei que disse tudo. Ah... Balela minha. Ninguém abre o jogo assim. Existem milhares de coisas que mantenho em segredo. Entretanto essa é minha distração. Minha luz da felicidade no fim do túnel. Minha certeza de que o medo não me corrói mais. De que o que quero eu faço. Ou melhor, eu tento. Não tenho medo. Embora devesse, não possuo esse sentimento medíocre. Pois eu sei que tenho, no mínimo, mais algumas décadas de vida. Privar-se, seja do que for, daquilo que se tem vontade, é burrice. Você! Diga que é orgulho, que não é burrice. Ou melhor, não diga. Grite. Berre. Ensurdeça-me. Faça isso. Tão solenemente digo que eu gosto de seu jeito. Desculpe-me você que lê. Mas agora me dirijo a apenas uma pessoa. Você, que sobrevoa, corre e mergulha no fundo de minha alma. Tu sabes que é você. Não se finja de inocente. Pense em tudo. Também estou nesse momento a pensar. Vale a pena? É compensador correr o risco? Esqueça essas suas respostas. O que eu quero eu irei batalhar. E você, desculpe-me, faz parte da minha estrada. Da estrada do querer mesmo sem poder. Do nocautear mesmo estando nas cordas. Nas cordas da indesejável, porém existente, tristeza da vida.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

                                    Saber amar

Dizem que o verbo amar é inflexível. Não se conjuga. Existe por si só. São bons argumentos, mas creio que o verbo amar sempre exigirá complementos. Explicações. Razão além de toda a emoção. Emoção além de toda a razão. Amar exige alma. Exige corpo. Exige espírito. Amar é absolutamente o explicar do inexplicável. O atingir do inatingível. É o alcançar das estrelas sem exigência de movimento.


Já amei. Amo e amarei. E acho que sei o que é o amor. O que é o amar. Sinto que é abdicar. É transformar-se. Amar é poder ser um ser diferente daquele que você estava jurado a ser. Amar é olhar nos olhos de sua amada e enxergar o brilho do sol. É pular de um avião para alimentar toda a paixão. É achar possível o sumiço da gravidade quando se flutua na doçura que um beijo pode proporcionar. Amar é saber mostrar e ser mostrado. É sentir a flor nascer dentro de si mesmo. É jurar eternidade sem nem mesmo saber se algo neste mundo é eterno. É pensar no melhor quando só o pior insiste em acontecer. Amar é alegrar-se com a miserabilidade das coisas. É apreciar cada detalhe. Cada passo, movimento. É ouvir a respiração de quem se ama e sentir-se no furacão. No furacão das ondas. Das ondas cerebrais que a todo tempo te leva a pensar ‘’como amo!’’. Amar é contentar-se. Amar é sofrer. O sofrimento mais sofrível que se possa imaginar. O sofrimento psicológico. Existencial. E sofremos sem piedade. Fazemos coisas que ninguém em sã consciência faria. Fazemos coisas que não nos beneficiam. Mas por amor. Por amor mostramos nossa face. Sentimos dor quando vemos a felicidade daquela que amamos. Contudo é isso que queremos ver. Chegamos a picos de montanhas e nos jogamos. Pelo amor. E este é tão estranho... Atira balas de sofrimento, mas não mata. Nunca vi ninguém morrer de amor. Pois ao mesmo tempo em que ele tira vida, a recoloca. Ao mesmo tempo em que pisa, ele levanta. É incrível como isso possa acontecer. E o amar, o verdadeiro amar, jamais é passageiro. Jamais. É possível que se passem vinte dias, vinte meses ou vinte anos, e aquele que realmente amou, ainda tem, lá na caixa dos sentimentos, guardado tudo aquilo que se passou. E mesmo que não se queira abrir a caixa da memória do amor, ela se abre. A chave não é palpável. A chave é a luz. A luz de um singelo olhar. Mas cheio de história. Um olhar que pode durar alguns segundos, mas que pra você, parece enxergar séculos de história. E aqueles que não enxergam? A voz que se chega aos ouvidos, que falou tanta coisa bela, jamais é esquecida. E como que se necessitasse de um chamado para ser reascendido, o amor renasce. E para os que não enxergam e não ouvem? O toque do ser amado é como ferro quente gravado na pele. Cicatriza, mas se o ferro lhe fere novamente, você sabe a dor que ele proporcionou. Se o amor lhe toca novamente, você sabe o quanto lhe amou. Amar é um verbo de vertentes. De possibilidades. Aquele que realmente amou, terá suas próprias definições. Poderão ser várias, ou apenas uma. Mas saberá o que é amar. Assim como tenho meu autoconhecimento do que acho ser. Afinal, no mundo existe de tudo. Só não existe aquele que não ama.






E ser amado? O que é ser amado? Não sei, talvez nunca tenha sido...
                             Antes que o mundo acabe...

Quero. Verbo cuja flexão se dá sobre a palavra egoísmo. Porque querer pode ser considerado tão feio? Eu quero. Desejo. Aspiro a tudo. Viajar. Daqui, desse cubículo de onde escrevo, ao céu. Quero o céu só pra mim. Conhecer um muçulmano, um cristão fervoroso, um budista tão tranquilo que me dê sono. O novo. O “desabitual’’. Quero correr. Dar continuidade a passos que me levem a fonte da existência. Correr à velocidade da luz. Possível? Não. Mas eu quero! Desejo pular até tocar na ponta da estrela com o brilho mais obscurecido pela pólvora mental da humanidade. Fazê-la brilhar com a vontade que o vaga-lume pisca. Quero deitar sob o oceano. Pacífico, Atlântico, Índico ou Ártico. Fale que não é possível. Fale! Eu quero. Aspiro ao descanso sob as águas mais límpidas da humanidade. Águas que ainda não encontraram a pobreza do ser humano. Que vontade de voar. Abrir os braços e flutuar. Para bem longe e para bem perto. Apenas levitar e acreditar que não sou só mais um na multidão. Ter um papel. Ah... Como queria ser ator. Atuar na vida. Na minha vida com mais vontade; na vida das pessoas com mais amor. Amor. Ainda estamos atados a ele? O amor está morto? Estou morto? Estou vivo. Como Roma está. Como o amor está. Quero amar o mendigo que pede esmola à ‘’madame’’ com seu poodle cor-de-rosa. Quero amar o burguês que se prende a uma peça do vestuário que custa mais que um salário. Quero amar a todos e a tudo. Eu quero. Sou extremamente egoísta. Nesse mundo eu quero tudo. Desse mundo eu aspiro a tudo. Beijar a mais bela modelo e a mais feia das feias. Afinal onde está a beleza? Nos rostos de cera? Ou no fundo da alma? Fugir. Esquecer nossa galáxia e partir pra outra. Brincar... Como foi bom poder brincar um dia... Sim, quero brincar também. Jogar peteca com o vizinho da esquina ou pular corda com a turma da escola. Quero conhecer. Conhecer o papa e o líder do satanismo. O criativo e o sem criatividade. O monge e o padre. A mula e sua cabeça. As guerras e o fim destas. Quero aprender. Alemão, chinês, italiano, hebraico, russo e latim. Aprender a raiz quadrada do infinito e o cozimento do arroz. Quero poder vagar no meu destino. Voltar do que ele tem reservado a mim. Para quê? Para poder fazer tudo de novo. E mais um pouco. Pedalar quilômetros com a garota mais diferente de mim no mundo. Amar a garota mais complexa do universo. Apaixonar-se pela mais parecida comigo. Criar uma máquina do tempo que me leve aqui e ali. Lá e cá. No passado e no futuro. Nos próprios deslizes do tempo presente. É... Quero mudar o tempo. Dias de trinta horas. Acho possível. Não? Porém, eu quero. Salvar vidas. Que coisa mais bela. Poder salvar algo. Desde o pior bandido do sertão até a senhorinha da nova estação de trem da metrópole. Quero o bem a tudo e a todos. Devemos querer isso. Quero nadar, fotografar, deixar o cabelo crescer e cortar. Quero fechar meus olhos e ter a certeza que minha vida valeu à pena. Que todas as minhas vontades foram, se não realizadas, ao menos projetadas e tentadas. Quero poder descansar sabendo que vivi profundamente. Mas antes de acabar esse texto, quero fazer muito mais coisa. Afinal o mundo acaba. O meu mundo acaba. Vamos fazer a revolução da vida. A beleza do querer e poder ou não poder. Afinal, um dia tudo acaba. O que você prefere? Chegar ao céu ou ao inferno afirmando que ‘’Sim, já sei o que é vida.’’ Ou ‘’ Me mande de volta.’’? Querer. Nunca deixemos de querer.
                                                 Uma flor amarela

Que vida é essa em que sou esquecido e esqueço a todos? Que amor é esse que destrói e corrói cada momento feliz que ainda tenho gravado na memória? Não poderia reclamar de nada. De nenhuma gota de suor que desce suavemente em meu rosto. De nenhuma lágrima que queima minha pele como se fosse fogo. Não poderia reclamar dos alimentos que se estendem sob a mesa da cozinha todos os dias. Dos olhos que me permitem ver amizade e paixão sob todas as cores. Não poderia reclamar da própria vida diante de tantas graças que me foram dadas. De tanto sofrimento físico que me foi aliviado. Mas reclamo. Insulto os superiores dos céus como se fossem os grandes culpados por essa tristeza, de gosto fúnebre, que me destrói a cada dia. Adio os sorrisos verdadeiros que poderiam embelezar minha face. Não há explicação para o momento. Não há mais forças para apresentar-se bem. Sinto que tudo explodiu. Que as raízes que fixavam meus verdadeiros sentimentos foram decepadas. O dia amanhece como o de ontem. Termina como o de amanhã. Como pode parar? Quando é que vai realmente parar? Sinto que se aproxima o dia. Mas há tanto tempo tenho essa sensação. Há tanto que sinto que vai ser diferente. Que tudo realmente irá mudar. Não muda. Não fica diferente. Existirá pressão nos atos e nos olhares. Um vácuo interno do meu cérebro. Cada pupila que me é dirigida eu suplico. Aspiro um olhar diferente ao menos uma vez. Mas quando isso acontece? Esse é meu problema. Estar sozinho na colmeia. Esta que dizem que depende de mim. Mas que me parece não me trazer nenhuma relação de dependência. Não sinto mais o prazer de estar na terra com deveres e alegrias. O desprazer é o que me prende. Talvez venha sendo originado desde quando eu entendi o que realmente significava ser feliz. Entendi mesmo? Minha visão de ser feliz é a que devemos enxergar? Não sei... Realmente não sei... Talvez isso venha acontecendo por despreparo de minha mente. Talvez não saiba o que é perder. Não ter. Não ser. Talvez deva deixar os talvez para trás. Quem disse que consigo? Tão difícil tomar a iniciativa. O pontapé. Tudo vai indo tão mal. Tudo vem surgindo com tanto rancor. É estranho acreditar que pode mudar quando se sente assim. Egoísmo supremo da minha parte é estar aqui. Diante de uma máquina, que alimentaria crianças tristes por não comerem, reclamando do ar que respiro. Mas eu sinto que esse é o problema. Hoje tudo é relacionado ao dinheiro. Ao amor material a que se dá às coisas. Não sinto esse amor. Meu sentimento é verdadeiro. Não deixo para trás o que deveria ser deixado. Por que tudo aqui nessa bolha sentimental em que vivo, é extremamente extremado. Sei que há pleonasmo nisto. Mas há pleonasmo no que sinto. Por que rejeitá-lo? Sei como ele iria sentir-se triste com a rejeição que o homem infelizmente insiste em praticar. Teria dó de maltratar o pleonasmo.

Que vontade doce que tenho de vagar. Levitar sob o que julgo ser meu lugar de origem. Deitar ao lado da flor mais amarela desse planeta. Da minha flor. Das pétalas que há tempos eu dedico tempo em regar. Que parece que não cresce no palpável, porém tem metros no inatingível. No inteligível. Respirar o aroma perfumado exalado de minha flor. Da minha flor amarela da vida. A flor que na sociedade enxergo negra. Mas que dentro do meu pensar e sentir possui o amarelo mais gritante que os megapixels conseguem alcançar. A flor que deveria exalar vida, mas que há tempos exala apenas pó.
                                              Por amor


Engraçado. Tão doce. Como algo que representa o fim de uma vida de gosto tão amargo, pode ter esse sabor?! Deve ser dádiva de Deus. Talvez ironia. Penso ter sido o escolhido do sofrimento. E que melhor forma de ser agradecido pelo que eu sofri do que com doçura ao fim da vida?
Tenho muitos motivos para a infinidade. Nunca passei fome, nunca perdi o movimento de pernas e braços. Família típica de classe média, com todas as regras que a sociedade impõe eu também tive. Entretanto, essas são as razões que levam outras pessoas do fim ao início do edifício. Tenho meus próprios conceitos. A minha concepção é diferente. Nascer sem ter  nascido. Crescer sem ter crescido. Viver para algum dia ter morrido. Isso me expande a tristeza e a infelicidade.
Desde sempre desejei ser importante. Servir de base para alguém que necessitasse. Busquei todas as minhas aspirações. Mas aqui, sob esta singela poltrona, ouvindo um jazz da época de meu avô, percebo que o mundo parece girar pelo avesso. Se é que existem giros pelo avesso. A minha tara de ser valioso, parece nunca ter sido satisfeita. Conheci centenas de pessoas. Não exagero ao dizer milhares. Entretanto, tenho a impressão de nunca ter sido conhecido. De ter uma face lisa e descolorida. Viajei de norte a sul. Só que, estranhamente, quando estava a norte, era sul. Quando estava a sul, eu era norte. Passei pelo leste sendo oeste. Pelo oeste sendo leste.
É perturbador olhar os anos que me deixaram e refletir. As memórias queimam. Achamo-nos inteligentes por marcar cavalos a ferro quente e definir a vida destes. Mas a natureza não deixa barato. Cada memória guardada é uma marca firmada. São chamas invisíveis que nunca se apagam. Assim como o amor. Engana-se caso esteja pensando que foi por amor minha desistência do circuito. Mas já que falei do fogo. ‘’Que seja eterno enquanto dure, posto que é chama.’’ Oh brasa. Rasga. Aniquila. Dilacera. Mas suaviza. Constrange. Modifica. Irracionaliza. Mas engrandece. Apaixonei-me por muitas mulheres. Amei apenas uma. Custo dizer não ter sido minha mãe. Não há porque mentir em um momento como esse. Amei apenas a garota que passava. Que passava alegre e esbelta em cada noite bem dormida que tive durante a vida. Acho que o amor mingua os neurônios. Propicia um olhar melancólico sobre as coisas. O não correspondido, é claro. Afirmo e reafirmo. Não é por amor.
Estou me sentindo mole e sonolento agora. Cada vez que respiro, sinto mandar mais ar para fora do que para dentro. Era para ser um momento triste esse. Mas estou feliz. É de livre e espontânea vontade. Não é por amor. Fique bem claro. O sol está se pondo. Minha luz se acabando. Saiba que eu tentei permanecer. Entretanto, a última gota d’água secou. A última pétala voou. O último pássaro cantou. Mas não foi por amor... Lembre-se disso. Não foi por amor...